A amiga que cedeu sua sala de estar à Igreja de Jesus Cristo

Décadas atrás, ela abriu sua casa para alguns fiéis. O que nasceu daquela bondade surpreendeu a nós dois.

(Esta é a segunda parte de uma série de três. Clique aqui para ver a série completa.)

A viagem de ônibus de Belo Horizonte a Viçosa, em Minas Gerais, leva cinco horas. A estrada sobe as serras, atravessa rios e passa por trechos de um verde lindo que engole a pista dos dois lados.

Na minha viagem ao Brasil, no fim de setembro de 2026, minha filha Jadi e o marido dela, Nate McDonald, fizeram esse percurso comigo. Eu não fazia essa viagem desde que deixei Viçosa como missionário da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, há mais de três décadas. A cabeça e o coração adoraram a ideia, mas quando chegamos a Viçosa, minhas costas já tinham algumas reclamações a fazer.

Uma igreja na sala de estar

Quando cheguei a Viçosa como jovem missionário, não havia capela. Mas havia a Conceição.

Ela era recém-batizada na Igreja, e alguns outros membros da cidade se reuniam na sala da casa dela. Meu companheiro e eu também morávamos lá, alugando um quarto, assim como alguns estudantes da universidade da cidade.

Ainda me lembro de preparar o sacramento (o pão e a água que abençoamos e compartilhamos todo domingo, de forma parecida com a comunhão) com uma das minhas próprias camisas brancas.

Depois de longos dias na rua, voltávamos para a cozinha dela. Na maioria das noites ela nos preparava algum agrado, e nos sentávamos à sua mesa simples para contar como tinha sido o dia. Às vezes outros inquilinos se juntavam a nós, e aquele grupo improvável de amigos virou família.

A congregação de domingo também cresceu. Com o tempo, meu companheiro e eu encontramos um apartamento maior só nosso, com uma sala grande o bastante para as reuniões de domingo. Nós a enchemos com poltronas de um cinema abandonado, empilhadas como peças de Jenga numa carroça puxada por um cavalo paciente. Poucas semanas depois da mudança, fomos organizados oficialmente como um ramo da Igreja, e eu fui chamado como presidente do ramo. Nunca houve um líder da Igreja mais nervoso e menos preparado.

Ainda não havia pia batismal. Batizávamos os novos membros, como a Conceição, num rio. Percorríamos o interior à procura de bons lugares e íamos e voltávamos de ônibus ou de táxi.

É difícil imaginar como teriam sido os primeiros anos da Igreja em Viçosa sem a Conceição. Muitas cidades desse tamanho não têm congregação nenhuma.

Para aqueles primeiros membros, e para dois jovens missionários longe de casa, ela não ofereceu só um lar.

Ela era o lar.

A capela ali perto

Pouco depois que saí de Viçosa, a Conceição se mudou para uma cidade menor, onde a Igreja não estava presente. Morou lá por anos, criando a família longe de qualquer capela.

Com o tempo, ela se afastou da Igreja. Mas nunca perdeu o carinho pelas pessoas da Igreja, nem pela história que começou na sala da casa dela.

Ao longo dos anos, o ramo que ela ajudou a fundar ficou grande demais para o esquema apartamento-capela. Então a Igreja comprou um prédio e o reformou, incluindo uma pia batismal. Pela primeira vez, os membros de Viçosa tinham um lugar próprio para adorar.

Há dez anos, a Conceição voltou a Viçosa e foi morar numa casa a uns cem metros dessa nova capela. Mas nunca tinha entrado nela.

Depois do reencontro emocionado, com abraços e almoço na casa dela (uma experiência deliciosa do começo ao fim, que merece uma coluna só para ela), fomos a pé até a antiga casa dela, onde tudo começou.

Ali na calçada, agradeci a ela, no meu português enferrujado, por ter sacrificado sua sala e sua mesa da cozinha, e por tudo o que nasceu delas.

Mais tarde, pedi aos jovens missionários que servem na cidade que nos encontrassem na capela e abrissem as portas. Eles abriram, e a Conceição entrou, com a Jadi, o Nate e eu bem ao lado dela.

Ela ficou comovida com a primeira visita à capela que, sem saber, tinha ajudado a tornar possível. A Conceição admirou as salas e se demorou diante da pia batismal. Quando eu disse novamente que a Igreja tinha uma dívida de gratidão com ela, ela respondeu com modéstia.

— Mas, Élder Wright — disse ela, porque velhos hábitos custam a morrer —, eu não sou mais o que vocês chamam de “ativa”.

De algum jeito, ela parecia achar que minha gratidão era para outra pessoa. Eu disse a ela que nem Deus nem a Igreja jamais esqueceriam o que ela fez por aqueles primeiros membros e missionários.

O que cresce

Missionários como os que abriram aquela capela naquela noite, e talvez todos nós também, podem cair na tentação de medir a fé pelo que conseguimos ver. Quem ainda vai à igreja no domingo? Qual é o chamado da pessoa? Ela é “ativa”?

Confesso que voltei a Viçosa meio que esperando fazer algumas dessas medições eu mesmo. Mas essa régua espiritual é curta demais para uma vida como a da Conceição. A fé raramente anda em linha reta, e o valor de uma pessoa para Deus nunca se mede pela lista de frequência. Ele conhece os motivos e o coração dela, e conhece também os seus e os meus.

Tenho certeza de que um Deus perfeito se lembraria de cada domingo em que a Conceição abriu mão da sua sala. Desmerecê-la hoje seria desonrar o que ela deu naquela época.

O que encontrei em Viçosa foram homens e mulheres, meus irmãos e irmãs espirituais, fazendo o melhor que podem para seguir Jesus e ser gentis com as pessoas ao seu redor.

Voltei para casa cheio de histórias e lembranças novas, mas continuo pensando na Conceição. Ela está no alicerce da Igreja naquela cidade, e nada pode diminuir o que ela deu. Porque aquilo que oferecemos aos outros continua crescendo muito depois que deixamos de acompanhar seus frutos. E continua tendo valor, estejamos ou não naquela sala.

Muitos anos atrás, a Conceição abriu sua sala sem saber o que poderia nascer dali. Ela não tinha como imaginar a capela, nem as pessoas que um dia adorariam lá.

Não tinha como saber que, anos depois, um missionário que um dia dormiu e adorou naquela casa cheia de gente viajaria milhares de quilômetros para agradecer a ela na calçada da sua própria casa.

Desconfio que em algum ponto da sua história existe uma Conceição, alguém que abriu uma porta para você muito antes de você entender o que aquilo significava.

Não espere três décadas para agradecer. A viagem é longa, mas vale cada quilômetro.